Wednesday, August 26, 2009

Jogo Falado



Já todos se aperceberam que o futebol das tardes de domingo, das queijadas de Sintra e dos nougats 4 a 100 escudos já não existe. Já não existe faz algum tempo, e que falta ele faz a toda a gente, pelo menos a mim. Nesse futebol havia negócio, corrupção, lances duvidosos, grandes jogadores e adeptos. Tinha tudo o que tem hoje, menos uma coisa, essa coisa maldita, que se chama televisão. Sim, eu sei que a televisão esteve sempre presente e unido com o futebol, mas não como agora, não como hoje, não desta maneira.

Quem se lembra do Domingo Desportivo, de "antigamente", tem que sentir vergonha daquilo que se vê hoje no mesmo canal num programa com o mesmo nome. Na altura em que se bebia cerveja a sério nas bancadas dos estádios por esse país fora o papel da televisão para o futebol era o de informar, dar a conhecer os resultados, as jogadas, os golos, as defesas, os campeões. Agora tudo é diferente. Agora querem ir mais além, bisbilhotar, descobrir podres, indagar factores além futebol. Existem programas para tudo, comentadores para todos os gostos. Jogo Falado, Dia Seguinte, Tempo Extra, Trio de Ataque, Pontapé de Saída, são só alguns dos programas que podiam dar uma mais valia ao "desporto rei" mas só agredi e ofende o espectador.

Os tais programas enveredam por vários caminhos, sendo os mais comuns estes:

- Pessoas "ilustres" que se assumem publicamente como um adepto fervoroso de um clube dos "três grandes". Geralmente a cultura futebolística é pouca e por vezes detêm cargos nos clubes que apoiam.

- Intelectuais e entendidos do futebol. Jornalistas que percebem tudo que é tácticas, movimentações, planteis do futebol nacional e estrangeiro. Não tomam partido de nenhum clube, mas toda a gente que gosta de futebol apoia um clube.

- Os ex-jogadores que figuram em programas para dar uma palavra de quem entende o futebol e as suas entranhas. Devia ser uma mais valia, mas por vezes é deprimente.

Estes são os formatos mais usados nas nossas televisões e que pena eu tenho. Acredito que haja uma boa intenção em tudo isto, mas simplesmente não resulta. Pegando num caso prático, segunda feira ouvia Dias Ferreira dizer que os adeptos ainda pioravam o estado actual do Sporting. Condenava os adeptos por estarem insatisfeitos e o demonstrarem. Se dissesse num café a um amigo, tudo bem. Mas não é o caso. Isto é mandar pedras aos adeptos que apanham o metro para ir ao estádio, apanham chuva e frio para apoiar a equipa e/ou arriscam a ir a estádios que não o nosso.

É trair o futebol, que não passa de 90 minutos (mais descontos), uma coisa simples que 12 pessoas o jogam e 4 pessoas o arbitra. Não passa disso.
Um dos casos mais clamorosos, que demonstra como a TV está a apodrecer o futebol, é as conferencias de imprensa ou as "flash interviews". Se uma equipa é arrasada num jogo, ou uma selecção perde um jogo na fase final, a primeira preocupação do "jornalista" é saber se a equipa está a chorar no balneário. Quer saber se há sangue, se há "noticia". O que se passou em campo fica para lugares de despromoção. Em primeiro lugar tem que se saber se a equipa está de rastos, depois arranjar um culpado e depois, só depois, analisar o jogo e o porquê da derrota.

E sim, é fácil relatar, ou comentar, um jogo dizendo trivialidades e lugares comuns. É fácil dizer que a equipa começa o jogo com um triângulo invertido ofensivo e que o defesa central tem que fazer muitas vezes a dobra porque o lateral sobe muito e não tem capacidade de fazer o corredor na sua plenitude. Difícil é ouvir comentários (como o do Mourinho no Europeu) em que acrescenta algo mais ao jogo. Alguém que saiba realmente aquilo que acontece, porquê e como.

Companheiros, eu só quero ver futebol e comer nougats a 4 100 escudos e depois ver os resumos na TV.

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